Boas Práticas

Alunos criam roupas com materiais recicláveis

Na eletiva “De 0 a 180”, os alunos aprendem fundamentos da moda, trabalham Matemática e Arte

Reutilizar materiais, como o papel, tão comum no dia a dia, desenvolver habilidades criativas e construir vestuários são atividades que compõem a eletiva “De 0 a 180”, ministrada na escola estadual Professora Dulce Ferreira Boarin. Ao entender a eletiva, até parece que a escola está localizada no circuito das malhas, entre cidades do interior de São Paulo e de Minas Gerais, mas não: estão bem no Centro da capital paulista.

O nome é para chamar a atenção, para quebrar todos os tipos de barreiras, como conta o professor de matemática e Física, Vasni dos Santos Pinto. “No início, ficamos mais de três semanas tentando achar um nome para essa eletiva. Nós temos que chamar a atenção, temos que trazer o aluno pelo gosto. E a gente tem que vencer o nosso peixe. Ficamos maquinando e de repente falamos ‘De 0 a 180’, e pegou”, explica Vasni. E a estratégia deu certo. “Tão certo que tivemos que cortar uma galera, pois tivemos muita procura”, relata o professor.

Além disso, ‘De 0 a 180’ é a representatividade da transformação. “A ideia é a de que os alunos percebam que esse material que não é mais utilizado pode ser transformado em outra coisa, e nós escolhemos a construção de roupas. É perceber a importância do material e da criação”, comenta Dione Pozzebon, professora de Arte.

A eletiva ajuda os estudantes a reconhecerem e utilizarem a Matemática em sua prática, contemplando as habilidades da Base Nacional Comum Curricular – BNCC, bem como a Arte e suas linguagens convergentes. Desse modo, buscou-se a contemplação dos projetos de vida que visam as duas disciplinas. Com isso, os educadores trabalharam com as classes do Ensino Fundamental – Ciclo II, mas uma aluna da 3ª série do Ensino Medio foi incluída, pois pretende se tornar estilista na fase adulta.

Os participantes, cerca de 35 alunos e alunas, compreenderam, durante as atividades, a indumentária através das relações com determinada época, local, cultura, etc. Um dos métodos principais da eletiva foi a apreciação e a pesquisa sobre diferentes épocas para desenvolvimento de processos de criação e produção de vestuário, baseada no desfile “A costura do invisível”, de Jum Nakao. No processo de produção, Vasni e Dione perceberam e utilizaram a Matemática através das figuras, volume, medidas, proporcionalidade, cálculo, área, perímetro e muito mais.

“Com ‘A costura do invisível’, tivemos que estudar o tema para construir essas roupas de acordo com as pesquisas. E no processo de construção, de verdade, entra a questão da Matemática, com todas as fórmulas. Na Arte, temos uma linguagem convergente, a moda, o design”, esclarece Dione.

A professora completa que “as coisas não estão desconectadas, elas andam juntas, e às vezes o aluno não consegue perceber. E com duas disciplinas a gente trabalha como um todo, além delas estarem presentes no dia a dia de cada um”, diz Dione Pozzebon. “Eles não têm essa ideia, eles acham que a Matemática só é trabalhada no banco. E a gente coloca que a disciplina está atrelada a tudo, inclusive na roupa. O estilista, por exemplo, usa a Matemática pura”, enfatiza Vasni.

“O que eu mais gostei foi o trabalho em equipe, além de saber diferenciar cada estilo da Moda. Tipo, eu quero uma coisa, mas tenho que escolher tudo em equipe. Isso foi bom, pois precisamos de muita criatividade. Eu não tinha tanta criatividade para fazer tudo isso sozinho, e o trabalho em equipe ajudou bastante”, entende Victor Nascimento dos Santos, 14, que curso o 9º ano.

O objetivo da eletiva “De 0 a 180” é possibilitar aos estudantes a oportunidade de enriquecimento do próprio currículo, ampliar, diversificar, aprofundar conceitos, procedimentos ou temáticas de uma disciplina ou área de conhecimento. Além disso tudo, o discente é levado a desenvolver estudos de acordo com os focos de interesses relacionados aos seus Projetos de Vida e/ou da comunidade a que pertencem e favorecer a aquisição de competências específicas para a continuidade dos estudos e para a inserção e permanência no mundo do trabalho.

Como resultados aparentes, “eles ficaram um pouquinho mais preocupados em suas vestimentas, no sentido de combinar. Antigamente andavam de qualquer jeito. E muitas vezes não batia, ficavam destonados. Hoje se percebe uma forma crítica, se vestem com um tipo mais bacana de roupa e, até mesmo, mais respeitosas. A gente observa isso”, diz Vasni.

“A eletiva foi interessante, pois nunca tinha visto isso em nenhuma escola. E atualmente melhorei minha forma de me vestir. Antes eu colocava qualquer roupa e agora não, eu combino as coisas”, afirma Alicia Kalayne Urioce, que tem apenas 12 anos e cursa o 7º ano na escola Dulce Ferreira Boarin.

“Teve um garoto que simplesmente cortou a própria roupa, fez buraquinhos… ele projetou e confeccionou para o jeitão dele. E a turma toda gostou bastante.  E a gente está percebendo que a mudança é geral. No frio, até o cachecol está sendo colocado de formas diferentes. Antes colocavam no pescoço, enrolavam e ‘vamos que vamos’, agora eles modificaram até isso”, aponta o professor de Matemática.

Desfile “De 0 a 180”

No dia 26 de junho está programado para acontecer o desfile das roupas criadas pelos estudantes que participaram da eletiva “De 0 a 180”. Na ocasião, os pequenos estilistas mostrarão ao público, formado pelos alunos e pelas alunas das outras series, todas as criações que saíram de suas cabeças.

A aluna Alicia Kalayne Urioce explica que produziu “uma saia que é, mais ou menos, anos 80, além de uma blusa feita com trama, quando a gente entrelaça os papeis. A minha saia é marrom, e a blusa com a trama coloridas”, adianta um pouco sobre o que o público pode esperar.

“Eu preparei uma jaqueta, um casaco longo, preto. É tipo um sobretudo. Os professores nos ajudaram com as medidas, e nos ensinaram para a gente ir construindo”, afirma Victor Nascimento dos Santos. Segundo o garoto, “foram sorteados um tema para cada grupo de alunos, e meu grupo pegou o estilo medieval”, completa.

Para a professora Dione Pozzebon, “foi muito interessante ver a participação e empolgação deles no processo de criação e construção. E na Arte é muito importante perceber essa questão da criatividade. Foi uma eletiva satisfatória e muito feliz. Foi um trabalho muito bom!”