quarta-feira, 09/03/2005
Últimas Notícias

A Física acontece a toda hora, inclusive fora da sala de aula

O arquétipo do professor de Física malvado é posto por terra quando se conversa com Regina Helena C. Pontelli, que trabalha na EE Miss Browne, na Pompéia, zona Oeste de São Paulo. Animadíssima, elaborando vários planos para transformar suas aulas em um laboratório onde os cientistas são os próprios alunos, Regina defende que o professor […]

O arquétipo do professor de Física malvado é posto por terra quando se conversa com Regina Helena C. Pontelli, que trabalha na EE Miss Browne, na Pompéia, zona Oeste de São Paulo. Animadíssima, elaborando vários planos para transformar suas aulas em um laboratório onde os cientistas são os próprios alunos, Regina defende que o professor não deixe de ser aluno:

– O professor tem que estudar. Tem que planejar a aula. Temos muito a aprender em aula. Os alunos têm idéias brilhantes. E acredito que o compromisso do professor de Física é envolver o aluno.

A Física, segundo Regina, trabalha fenômenos da natureza que o aluno vivencia “Quero que eles deixem de ver a matéria como algo abstrato”. Por isso, ela aposta em materializar a disciplina. Como? Regina incentiva discussões em sala de aula, e propõe que os alunos usem a imaginação para descrever por meio de desenhos como eles acham que os processos acontecem. Assim eles passam a entender processos invisíveis como a eletricidade, por exemplo.

O aluno tem que trabalhar

As experiências que Regina realiza em sala são muito apreciadas pelos alunos. “Minhas turmas desse ano já chegaram perguntando se vamos montar a pilha, como fiz com a turma do ano passado.

Além da pilha, esse ano quero fazer um aquecedor solar e uma máquina a vapor com latinha de alumínio”. Por meio dos experimentos, os alunos compreendem como é a construção da ciência, suas dúvidas, erros e acertos. Os alunos comentam seus resultados e depois recebem o embasamento teórico.

Regina leva problemas do cotidiano para serem debatidos pela turma: “Está sendo discutida a construção de uma quarta usina nuclear no país e eles precisam saber o que isso significa”.

A professora acredita que a Física pode ser um instrumento de cidadania nas mãos dos alunos. Mostra, como exemplo, a questão do lixo, um problema ambiental que pode ser analisado por sua matéria: o material reciclado significa uma economia no consumo de energia.

Os professores também têm que trabalhar muito, diz Regina. “Tem professor que acha interessante dar uma aula incompreensível, é muito mais fácil porque ele fica como o dono da verdade e consegue manter o rumo da aula sob seu controle”. Os alunos levantam questões que muitas vezes a obrigam a pesquisar para atendê-los. Em outras ocasiões o professor tem que suprir a ausência de clareza que há em alguns livros didáticos.

Até o cinema é usado para descontrair as aulas: com “Frankstein de Mary Shelley” (Mary Shelley’s Frankstein, EUA / Inglaterra, 1994, direção de Keneth Branagh) Regina discutiu a descoberta da eletricidade animal e como o avanço da ciência provoca conflitos éticos em cada época.

Todo esse trabalho “só” para que o aluno, ao terminar o Ensino Médio, possa levar um pouco da Física consigo. Assim, é impossível deixar de observar que Regina incorpora sim um arquétipo, só que positivo: o da professora maluquinha, tão bem caracterizado por Ziraldo.

* Estamos no Ano Internacional da Física, que comemora o centenário da publicação por Einstein de artigos sobre a relatividade especial, a relação massa-energia e o movimento browniano. Aproveitamos a ocasião para destacar ao longo do ano letivo os professores que lapidam nossos jovens Einsteins.

Aline Viana