terça-feira, 27/02/2018
Mastrangelo Reino//MáquinaCW
A Escola Que Queremos

Alvo de bullying, adolescente se transfere à rede estadual para cursar o Ensino Médio

Lúcia Puglia precisou mudar de escola para manter o foco na FUVEST sem se preocupar com perseguições espontâneas

O bullying afeta todas as escolas, seja as de Ensino Fundamental ou as de Ensino Médio. Seja estadual, municipal ou particular. Mas, essa prática, muitas vezes velada, precisa ser identificada e combatida. Somente assim os estudantes que sofrem desse mal conseguirão ter uma passagem mais tranquila pela vida acadêmica. E para, justamente, conseguir manter o foco na aprendizagem, a jovem Lúcia Puglia (18), que era uma das inúmeras vítimas do bullying, decidiu mudar de escola para encontrar aquele que seria o ambiente ideal.

Foi então que encerrou sua matrícula em uma escola da rede particular, no Ipiranga, zona Norte da Capital, e se matriculou na E. E. Alexandre de Gusmão, que fica próximo de sua casa, no mesmo bairro. “Eu saí da escola particular, para entrar na escola pública, porque as pessoas de lá eram muito fixadas nos padrões impostos pela sociedade e eu não me sentia bem naquele espaço. E eu sabia que ali eu não iria conseguir avançar no Ensino Médio”, afirma Lúcia Puglia.

Desde o sexto ano do Fundamental, a pequena Lúcia já levava consigo uma certeza, ela queria estudar o ensino superior na Universidade de São Paulo (USP). Ainda não sabia o curso, mas isso era só um detalhe. Ela sofria perseguição por mais de um fator, primeiro por ser muito estudiosa, o que não deveria ser alvo dos maldosos. Segundo, era considerada acima do peso e, também, seus lindos cabelos enrolados “não se encaixavam nos padrões da sociedade”, como ela mesmo relata.

“Foi bem pessoal o negócio. Tinha um menino que até me perseguia. Eu mudava de carteira e sentava nos fundos da sala, ele me seguia para ficar me atormentando… então, era bem pesado”, relembra Lúcia.

Lúcia Puglia decidiu que teria uma conversa com a direção do colégio em que estudava para falar que estava decidida a mudar de instituição e quais eram os motivos. Ouviu que poderia ser alvo das agressões em outras escolas, pois era algo comum. “No Alexandre de Gusmão, a primeira mudança que teve foi que parou de vez esse bullying, essa perseguição por eu ser estudiosa. Quanto ao físico, quanto ao cabelo, eu acho que parou também porque muitas pessoas eram mais parecidas comigo”, explica a estudante.

Em 2018, Lúcia Puglia irá cursar o primeiro ano de Relações Internacionais na Universidade de São Paulo. Foi um longo período de preparação, mas sair de um ambiente carregado de perseguição espontânea a fez conquistar seu maior sonho.

A jovem relata que a aproximação, no início das aulas, se deu por ela ajudar a tirar dúvidas dos colegas de classe. O que antes era um empecilho, agora é utilizado como forma de fortalecimento de amizades. “E a minha melhor amiga do Alexandre de Gusmão está na USP, outra amiga de lá também está. Então é muito bonito ver que a gente seguiu caminhos parecidos e conseguimos alcançar nossos sonhos. E é maravilhoso, assim, essa amizade que a gente conseguiu manter”, contempla Lúcia.

É muito importante prestar atenção nas atitudes das crianças e adolescentes, dentro e fora da escola. Geralmente, as crianças que sofrem bullying apresentam sintomas de timidez, baixo autoestima, falta de confiança em si mesmo, preferem ficar sozinhas, entre outras psicoses. Muitas vezes, sua prática é velada, o que torna o combate mais difícil. Mas, uma coisa é certa: o bullying é crime, e denunciar às autoridades competentes é sempre a melhor forma de combate-lo.

Além disso, o bullying, se não combatido, pode prejudicar a formação do caráter da criança, tornando-a mais sensível e até mesmo insegura na fase adulta. Para a professora Aparecida dos Santos Marques, da E.E. Professor Sergio Murilo Raduan, “hoje eles [alunos e alunas] são crianças, mas podem se desenvolver com personalidades tímidas, doentias, angustiadas. Podem desenvolver até uma depressão, ou um possível ódio, que pode gerar uma situação agressiva no futuro. Ou seja, é prejudicial a ele mesmo, à sociedade e à sua própria família”, completa.