segunda-feira, 06/12/2021
Notícia

“Ao sair de casa, eu tinha plena certeza de que eu seria de alguma forma desrespeitada. Mas não, isso não aconteceu”, conta coordenadora travesti da rede estadual

Alexya Salvador relembra sua trajetória e destaca o apoio que recebeu dos alunos no dia em que se apresentou como professora pela primeira vez

Seu desejo por lecionar veio junto com a vontade de fazer diferente. Alexya Salvador leciona há 17 anos na rede estadual de São Paulo. Travesti, ela conta que nos anos 80 e 90 sua trajetória acadêmica foi marcada por muitas agressões físicas e verbais, que partiam tanto dos seus colegas de turma, quanto de seus professores. E, que sempre se sentiu invisível no ambiente escolar.

“Me lembro como se fosse hoje, quando um grupo de meninos estavam me esperando no ponto de ônibus para me bater novamente. Eles me jogaram no chão e, aos chutes e palavrões, começaram a me bater. De repente, vi que o carro do professor de educação física parou ao lado do ponto de ônibus. Naquele momento, eu dei graças a Deus, pois, o professor iria intervir e, no meu pensar, os meninos iriam parar de me bater. Entretanto, não foi isso que aconteceu”, relata Alexya.

Foi a partir deste dia que Alexya decidiu ser a professora que nunca teve. E, não permitiria que situações LGBTQIfobia, como as que vivenciou, passassem despercebidas.

Foi em uma escola periférica, na cidade de Franco da Rocha, que Alexya se apresentou como professora pela primeira vez, após anos já lecionando. Segundo a docente, ela já estava preparada para sofrer as mesmas agressões verbais do passado. Porém, a forma como ela foi recebida foi surpreendente. Em algumas turmas ela foi aplaudida e abraçada. Sua relação com os alunos sempre foi muito positiva e cercada de respeito.

“Ainda me recordo dos tremores nas pernas, a boca seca e o coração batendo a mil. Entretanto, a forma como cada sala me recebeu, foi algo incrível. Ao sair de casa, eu tinha plena certeza de que eu seria de alguma forma desrespeitada. Mas não, isso não aconteceu”, relembra.

Alexya conta que sempre buscou dar voz aos estudantes e trazer a pauta diversidade para as suas aulas, além de ter um olhar para além da sala de aula, principalmente com estudantes em vulnerabilidade social. “A sala de aula é um terreiro fértil, lugar oportuno para trabalhar conceitos e valores sociais”

Em março deste ano ela assumiu a coordenadoria da Escola Estadual Professor Carlos Augusto de Pádua Fleury, em Mairiporã. “A Alexya está na coordenação porque é competente, ela já passou por muita coisa, e tem muito a ensinar. Fora tudo que ela já faz para escola e para o bairro”, afirmou Deise Scarparo, diretora da unidade.

Alexya acredita que estando em um cargo de gestão ela pode contribuir, ainda mais, com a comunidade escolar, fazendo da escola um ambiente mais plural.