quarta-feira, 28/11/2018
Notícia

Instituto Liberta encoraja denúncias de abuso sexual infantil na rede

Entidade realizou rodas de conversas nas 91 Diretorias de Ensino e premiou melhor projetos sobre o tema

Escola não é só o local onde se ensina e compartilha conhecimentos. Muitas unidades da rede de ensino paulista também priorizam a socialização e a aproximação dos servidores com os alunos a fim de estabelecer um vínculo maior entre escola e comunidade.

Conhecer de perto os desafios e dificuldades do estudante fora da rotina escolar, por exemplo, é essencial para conquistar um aprendizado muito mais eficiente. Seja qual for, é importante que a escola dê o suporte necessário para garantir a qualidade de vida do aluno.

Desde 2016, o Instituto Liberta trabalha com a missão de combater a exploração sexual de crianças e adolescentes no Brasil. Embora seja uma questão muito delicada, muitos casos são registrados em todos os cantos do país e nem sempre é fácil de perceber os sinais de abuso.

Pensando nisso, a entidade estabeleceu uma parceria com a Secretaria de Estado da Educação de São Paulo para auxiliar servidores da rede a identificar casos de exploração sexual infantil e apresentar caminhos de denúncias anônimas.

Lançada em fevereiro deste ano, a “Jornada de Rodas de Conversa” reuniu professores-coordenadores, supervisores de ensino, técnicos pedagógicos, vice-diretores, professores da Escola da Família e mediadores de conflitos para trocar experiências sobre o tema.

“A ideia é apresentar um panorama nacional e falar sobre a importância de fazer a denúncia. A estratégia das conversas é baseada nos relatos dos próprios servidores”, explica Cristina Cordeiro, diretora adjunta do Liberta e responsável pela condução dos encontros.

A iniciativa, que conta com o apoio da universidade norte-americana Columbia, totalizará 182 rodas nas 91 Diretorias de Ensino do Estado até o final deste ano.

Através dos encontros, Cristina conta que a situação se repete em todas regiões do Brasil e que muitos ainda têm receio de falar sobre o assunto. “No final das rodas, eu percebi que eles se sentem muito mais engajados e que se sentem mais confiantes para fazer a denúncia anônima pelo Dique 100”, completa.

Premiação

O Instituto Liberta decidiu reconhecer na prática muitos projetos que surgiram durante as rodas de conversa com os servidores da rede. Na última sexta-feira (23), um seminário realizado no Unibes Cultura, na capital paulista, premiou as melhores propostas sobre o tema.

Entre as seis vencedoras, estão Lívia Aparecida Alves e Bruna Danielle Zafani, ambas professoras da E.E. Prof. Dr. Oscar de Moura Lacerda, do município de Ribeirão Preto. As duas pensaram em  criar um canal no Youtube para discutir o assunto de maneira mais próxima da comunidade escolar.

“A ideia surgiu a partir de um projeto que acontece dentro na nossa unidade, em que a gente conversa com os alunos duas vezes por semana para saber como está a rotina deles fora da escola”, comenta Lívia. Segundo ela, a maioria dos casos de abusos são presenciados nas famílias dos pequenos.

Com o projeto, as docentes pretendem disponibilizar canais de denúncias mais fáceis, como um número de WhatsApp e Skype. Elas e os demais vencedores ganharam uma viagem para Nova Iorque em julho de 2019.

“Essa integração é muito importante para a rede. Temos uma parceria muito grande com o Ministério Público e com Conselho Tutelar aqui na região”, afirma a dirigente de ensino de Ribeirão Preto, Simone Maria Locca.

Impactos na rede

A Secretaria de Estado da Educação conta com um setor especializado para atender demandas desse porte dentro da rede. Por meio do Sistema de Proteção Escola (SPEC), servidores podem registrar denúncias online através do portal ROE (Registro de Ocorrência Escolar).

De acordo com Sandra Fodra, responsável pelo Projeto Mediação Escolar e Comunitária do SPEC, as rodas de conversa tiveram um impacto positivo em todo Estado e o envolvimento dos participantes foi muito grande.

“Só no primeiro semestre deste ano notamos um número de denúncias no ROE próximo de todos os registros feitos em 2016 e 2017. Tenho certeza que isso foi resultado do engajamento dos servidores”, complementa.

Por meio desse portal, a rede também consegue obter orientações de como lidar com esses casos. “Quando as pessoas falam sobre o assunto, isso vai empoderando as denúncias. É na escola que existe a maior possibilidade de identificar esses abusos através do comportamento do aluno”, finaliza Sandra.