quinta-feira, 28/06/2018
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Projeto “Narrativas Quilombolas” valoriza a cultura desta comunidade

No Estado, são 60 comunidades serão retratadas em livro e um caderno de atividades para toda a rede

Foi por meio de uma demanda das próprias comunidades quilombolas, que totalizam hoje 60 em todo o Estado de São Paulo, que nasceu a ideia do projeto “Narrativas Quilombolas”, que inclui um livro didático e um caderno de atividades, que serão enviados para todas as 91 Diretorias de Ensino, em formato PDF.  A ideia é valorizar a cultura das comunidades Quilombolas, que com isso, ganharão o primeiro registro oficial de suas histórias, lutas e resistência.

O lançamento está previsto para 20 de setembro na escola estadual quilombola Maria Antonia Chules Princesa, pertencente a Diretoria de Ensino de Registro. A instituição oferece educação e conhecimento a, pelo menos, seis comunidades quilombolas que vivem nos arredores.

A Diretora do Núcleo de Inclusão Educacional (NINC), do Centro de Atendimento Especializado (CAESP), da Coordenadoria de Gestão da Educação Básica (CGEB), Laís Barbosa Moura Modesto, conta que as pesquisas começaram em 2012 e que a equipe técnica do NINC percebeu não somente a necessidade de produção desta obra, bem como a riqueza que ela traria como material de apoio para o currículo do Estado. “Tivemos um tempo importante de preparo, de pesquisa dentro das próprias comunidades, de sistematização do material. Queríamos ter esse cuidado de visitá-los, ouvi-los, recontar suas histórias da forma mais legítima possível para que houvesse essa identificação, já que os alunos têm essa ligação profunda com suas comunidades. Trabalhamos arduamente pelo repasse oral de toda essa rica cultura”, explicou.

O professor Renato Ubirajara, que pertence à equipe técnica do NINC e – também é um dos organizadores do livro -, visitou estas comunidades, esteve junto da população e diz que as vivências são inesquecíveis. “Foi um pedido deles, enquanto quilombolas, o registro dessa história, dessa singularidade. É a valorização da fala dos mais velhos, das comunidades tradicionais, de como cada quilombo se formou, a luta para conquistar a terra, as histórias folclóricas, como a do Menino d’Água, passadas de gerações em gerações. Isso só nos enriquece, informa e, acima de tudo, nos dá forças para continuar trabalhando”, ele relata. “O Vale do Ribeira tem a nossa maior concentração de comunidades quilombolas, é muito rico. O nosso Estado ainda precisa se descobrir”.

Diferentemente do que povoa o imaginário social brasileiro, afirma Ubirajara, nem todos os quilombolas são ex-escravos – o que se aproxima de uma ideia de Brasil Colônia e foge muito da realidade destas populações. “Cada comunidade tem a sua particularidade, muitas já têm suas próprias terras adquiridas e sua história é maravilhosa. Sou muito grato pela oportunidade de fazer parte da equipe técnica da Educação Escolar Quilombola no Estado de São Paulo”.

Reconhecimento e identidade

A grande discussão dos quilombolas na atualidade é, justamente, a luta pela terra – o que, consequentemente, resgataria a sua história, valorizaria a cultura afro-rural paulista, sobretudo porque, segundo os profissionais envolvidos com o projeto, ainda há um desconhecimento quando se fala sobre o assunto. E é justamente disso que se trata a obra produzida – e que será enviada em formato PDF para todas as 91 Diretorias de Ensino, após o lançamento oficial. Entre os temas que permeiam a obra é de suma importância para estas populações, discussões sobre alimentação, memória coletiva, família e reminiscências linguísticas também.

“É válida a reivindicação da comunidade de ter um material específico, a história do quilombo finalmente registrada por meio de um trabalho profundo de pesquisa, de coleta de depoimentos. Eles se veem nessas histórias e resgatam, por meio delas, a sua própria identidade”, complementa Gabriel Marcus Spinula, Dirigente de Ensino da regional de Registro. “Toda a diretoria de ensino se envolveu diretamente neste trabalho, que nos orgulha. Toda a orientação técnica transformou esse registro num material muito mais rico do que poderíamos imaginar. E nosso papel é o de sempre dialogar, conhecer e comunicar tudo isso”.

A professora coordenadora do Núcleo pedagógico e interlocutora da educação escolar quilombola, Maria Helena Zanon Salvador, fala com muita emoção sobre a conclusão do projeto – que, na verdade, está apenas começando na prática. “O que nós mais almejávamos era atender as necessidades locais, as questões culturais, a história local com suas especificidades. É estudar a luta deste povo por seu reconhecimento, manter suas tradições e, acima de tudo, valorizar as suas conquistas. A resistência enquanto comunidades longevas, a preservação da terra, do solo, todo esse resgate, foi um aprendizado enorme para todos nós. É um trabalho sob o olhar dos quilombolas”, contou.

O lançamento, em setembro, deve contar com uma roda de conversa com pessoas que participaram do projeto desde 2012 – principalmente os quilombolas mais velhos, uma mesa com os autores do livro que abordarão assuntos tratados na própria obra e também uma interação com o público.

“É importante este registro porque, muitas vezes as pessoas vão até as comunidades, falam as coisas, fazem perguntas e fica por isso mesmo. Um retorno efetivo, é nosso papel como poder público. O grupo tem características próprias e é importante que isso se reflita no nosso currículo, enquanto educadores”, conclui Ubirajara.