segunda-feira, 19/10/2020
Alimentação Escolar

Videoconferência aborda a importância do mel na alimentação escolar

Organizado por extensionistas da Secretaria de Agricultura, evento destacou caminhos para a viabilização do produto

Alimento natural que traz na composição elementos que contribuem para uma vida saudável, com muita energia, o mel pode ser considerado essencial na alimentação das crianças, principalmente daquelas em idade escolar. Sob essa perspectiva, como uma ação de extensão rural, o Grupo Gestor de Apicultura e Meliponicultura da Coordenadoria de Desenvolvimento Rural Sustentável (CDRS), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado, composto por extensionistas de diversas regiões paulistas, realizou em 30 de setembro uma videoconferência com o objetivo de proporcionar um espaço para troca de informações e experiências, permitindo o aprimoramento dos conhecimentos e caminhos para a viabilização da introdução do item no cardápio das escolas públicas.

A importância do tema ficou expressa na pluralidade dos participantes: extensionistas rurais, gestores públicos, secretários municipais de Agricultura, Educação e Meio Ambiente, educadores, nutricionistas, apicultores, meliponicultores e outros, representando mais de 100 municípios de diversos estados.

“Mesmo impedidos no momento de realizar ações presenciais, por conta da necessidade de distanciamento social, como Secretaria de Agricultura temos intensificado os esforços para promover as ações de extensão rural que beneficiem os produtores e contribuam para o desenvolvimento das cadeias produtivas. No que concerne a esse tema tão importante do mel na alimentação escolar, o Grupo Gestor entendeu que realizar o evento, por meio de uma ferramenta digital, possibilitaria esse alcance de pessoas, que foi além de nossas expectativas”, explica Júlio Marcondes, médico veterinário da CDRS Regional Jaú, integrante do Grupo Gestor e da equipe organizadora do evento.

“A videoconferência mostrou a relevância do tema, pois a segurança alimentar no ambiente escolar é fundamental e deve ser entendida como um elemento pedagógico, pois crianças saudáveis e com energia têm sua capacidade cognitiva e de aprendizagem aprimorada. Por isso, acreditamos que o mel é um excelente alimento a ser incluído nos cardápios escolares, inclusive está em consonância com as recomendações da Organização Mundial da Saúde e Organização Pan-americana de Saúde, que, para garantir o crescimento e desenvolvimento adequados das crianças, preconizam a limitação do consumo de açúcares refinados, o que leva à necessidade de um adequado balanceamento da dieta e à redução dos alimentos industrializados na alimentação escolar”, completa.

Consumo

Segundo dados apresentados na abertura do evento pelo presidente da Confederação Brasileira de Apicultores e Meliponicultores, José Soares de Aragão Brito, o consumo per capita/ano de mel no Brasil está abaixo de 80g, uma quantidade mínima em comparação à de outros países, como a Alemanha, que é de 1,1 kg.

“Parabenizo a iniciativa da Secretaria de Agricultura pela realização deste evento, pois são necessárias ações integradas para aumentar esse consumo. E para que isso aconteça é preciso levar essa cultura alimentar à população brasileira; e qual melhor caminho que começar pela infância? Portanto, a introdução do mel na merenda escolar é instrumento dessa viabilização. Estamos empenhados em levar essa pauta para a Frente Parlamentar que trata do tema, para fortalecer os caminhos para o sucesso nesta ação em prol da vida”, diz.

Mostrando como ações coordenadas são importantes para a efetivação da inserção do mel em Chamadas Públicas do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), Júlio Marcondes apresentou dados que demonstram o potencial a ser trabalhado em São Paulo.

“Fizemos um levantamento pelo qual identificamos que, entre janeiro de 2016 e julho de 2020, dos 645 municípios paulistas apenas 82, ou seja 12,7%, colocaram o mel no cardápio para a aquisição pelos programas de compras institucionais. Nesses municípios, a compra do mel totalizou R$ 4.974.950,00 pelo PNAE, conforme dados da Coordenadoria de Desenvolvimento dos Agronegócios (Codeagro/SAA). Esses números demonstram um grande potencial a ser explorado”, explica Júlio Marcondes.

Alimentação saudável

Para o engenheiro agrônomo Osmar Mosca Diz, da Divisão de Extensão Rural (Dextru/CDRS), que integra o Grupo Gestor, a inclusão do mel na merenda escolar é uma ação transversal, que vai além da introdução de apenas mais um alimento saudável.

“O mel é um excelente alimento para a saúde e proporciona energia, nutrição e vigor, que contribui para que as crianças cresçam saudáveis e felizes, o que favorece seu potencial como alimento a ser fornecido na fase escolar”, salienta.

“Mas vai muito além, pois abre o caminho para educação alimentar, com formação de paladar saudável, e os cuidados com a saúde desde cedo; permite a introdução da educação ambiental, que pode ser trabalhada a partir da apresentação das abelhas, contribuindo para a conscientização não apenas das crianças, mas de suas famílias, dos educadores, enfim, de toda a sociedade sobre a importância de se resguardá-las para preservação da vida, da biodiversidade e da produção de alimentos e conservação das matas e florestas, por meio de seu principal papel: a polinização”, avalia Osmar, destacando que a introdução desse canal de comercialização também significa mais renda para pequenos produtores.

Extensão rural

Segundo a engenheira agrônoma Alexandra Luppi, da CDRS Regional Mogi Mirim, integrante do Grupo Gestor, o evento deixou clara a importância de se trabalhar e promover o desenvolvimento dos segmentos de apicultura e meliponicultura com ações de Assistência Técnica e Extensão Rural (Ater) em parceria com entidades ligadas ao setor.

“A cadeia produtiva dos produtos das abelhas é uma importante atividade econômica que gera emprego e renda, sendo o mel um dos principais produtos comerciais, o qual representa uma alternativa de renda interessante, especialmente para pequenos produtores. Um de nossos papéis como extensionistas é de articuladores de políticas públicas”, ressalta.

“Nessa questão ligada especificamente ao PNAE e à inclusão do mel nas Chamadas Públicas, assumimos a responsabilidade de fazer a interlocução atuando como facilitares do processo nos municípios em um processo de conscientização dos gestores públicos, nutricionistas e secretarias de Educação, por meio das Casas da Agricultura, que também orientam tecnicamente os produtores no campo e na gestão e regularização da atividade, para que possam ampliar a comercialização e viabilizar a participação nos programas de compras institucionais”, acrescenta.

Apresentada durante o evento, a experiência do município de Itatinga, ligado à esfera de atuação da CDRS Regional Botucatu, atestou a importância dessas ações. “Fizemos a inclusão do mel no PNAE em 2012; o que só foi possível graças à parceria entre a Prefeitura, a Casa da Agricultura e os apicultores. A primeira ação foi uma reunião dos extensionistas e as nutricionistas sobre a inclusão do mel no cardápio. Como já temos o Serviço de Inspeção Municipal (SIM) e os apicultores organizados e regularizados em uma associação que foi fortalecida pelo apoio técnico e com recursos oriundos do Projeto Microbacias II, que foi executado pela CDRS, o mel se tornou uma cadeia produtiva importante no município, com uma produção de 1.000 toneladas por ano”, diz.

“O trabalho da Casa da Agricultura também foi importante no apoio aos apicultores para planejamento da quantidade de entrega do mel por cada um; a data de entrega em função do cardápio; e a embalagem adequada. Com todos os detalhes acertados e os atores envolvidos capacitados e articulados, podemos dizer que os resultados têm sido animadores, implicando aumento do consumo de alimento saudável pelas crianças e melhora de renda para os apicultores”, avalia.

Renda

Para Luciano da Silva Fidelis, apicultor há mais de 20 anos e integrante da Associação de Apicultores do Polo Cuesta (Apicuesta), além de mais renda, poder entregar o mel nas escolas é motivo de satisfação e alegria. “O apoio da CDRS e os recursos do Microbacias II foram decisivos para que pudéssemos dispor de melhores condições e estrutura para beneficiar o mel, o que agregou valor à produção, abriu novos mercados de comercialização, incluindo o do PNAE, que nos possibilitou levar às crianças um alimento que gera saúde e mostrar a importância das abelhas para a vida”, destaca.

De acordo com a engenheira agrônoma Luciana Calore, responsável pela Casa Agricultura de Itatinga, os recursos investidos na Apicuesta foram de mais de R$ 1 milhão, os quais possibilitaram a construção da Casa do Mel, com todos os equipamentos para o beneficiamento, incluindo uma máquina para o envase do mel em sachês, embalagem exigida nas Chamadas Públicas do PNAE.

Paulo Roberto Forti, engenheiro agrônomo e consultor apícola, abordou em sua palestra a importância do mel na merenda escolar e levantou o questionamento. “Como estimular o consumo de mel nas escolas? O Brasil é 4.º maior produtor de mel do mundo. Das 40 mil toneladas de mel produzidas por ano, 50% são consumidas no mercado interno e os outros 50% são exportados. Alguns envolvidos no segmento não defendem estimular de forma mais intensa o consumo interno, para não diminuir o volume de exportações”, pontua.

“Acredito justamente no contrário, pois se aumentarmos o consumo de mel, especialmente por essa via do PNAE, o reflexo será sentido em toda a cadeia, pois o apicultor terá mais renda, investirá no aumento da produção, gerando ganhos em todos os níveis da cadeia”, salienta Paulo, enfatizando que essa viabilização só será possível por meio de uma educação ambiental que integre educadores, alunos e apicultores, com a apresentação do mel e seu valor alimentar e  da presença da abelha como indicador  de conservação da biodiversidade. “É preciso valorizar a apicultura como uma atividade 100% sustentável”, salienta.

Para a nutricionista Fabíola Figueiredo Nejar, professora do Departamento de Enfermagem e Nutrição da Universidade de Taubaté (Unitau), que proferiu a palestra “Merenda escolar e produtos apícolas: uma proposta de sustentabilidade e adequação nutricional”, o tema deve ser conduzido com o envolvimento estreito das nutricionistas e merendeiras das prefeituras, para que o mel tenha o devido reconhecimento nos cardápios dos alunos.

“São muitos os desafios de se implementar políticas que garantam a alimentação adequada e que subsidiem as pessoas a fazerem escolhas conscientes. São necessárias ações que permitam a oferta de alimentos de forma regular e socialmente justa. Para a maior inserção do mel na alimentação escolar é necessário desmitificar a visão que muitos têm de que ele é apenas mais um doce. Existe uma cultura que, apesar de já ter algumas mudanças, ainda aceita de forma natural a oferta de produtos altamente açucarados e industrializados nas escolas. Portanto, cada vez mais nutricionistas e merendeiras precisam ser capacitadas quanto às propriedades do mel e devem estar envolvidas no processo de Compras Públicas”, diz.

São Luiz do Paraitinga

Localizada no Vale do Paraíba, distante 235 km da capital paulista, a Estância Turística de São Luiz do Paraitinga, cidade de pouco mais de 10 mil habitantes, inserida na região do Vale do Paraíba (ligada à área de atuação da CDRS Regional Pindamonhangaba), se destaca com uma experiência diferenciada, iniciada com a inclusão do mel no cardápio das nove escolas rurais e urbanas.

Com Chamadas Públicas desde 2011, a cidade contabiliza, até o momento, uma geração de renda de quase R$ 90 mil e mais de 360 mil sachês de mel distribuídos aos alunos com idades entre 3 e17 anos.

“Um dos exemplos marcantes de estamos no caminho certo, e de que a inclusão feita pelo PNAE tem dado resultados positivos, é a história do aluno Cauê Matheus Moura de Oliveira, que foi apresentado ao mel aos cinco anos de idade na educação infantil e hoje, aos 14 anos, continua ‘adorando’ e consumindo mel no ensino fundamental II, segundo relato de sua mãe, estimulando o irmão menor e família toda a fazer o mesmo”, explica Natália Irina, nutricionista da prefeitura.

Em São Luiz do Paraitinga, a introdução do mel no PNAE levou a uma mobilização com ações de educação ambiental e estímulo à alimentação saudável. “Em um trabalho coordenado e integrado entre as diversas entidades ligadas ao segmento e os apicultores fizemos capacitações e campanhas para desmistificar a introdução do mel no cardápio, abordando temas que geram algumas inquietações entre educadores, nutricionistas e pais: mel é alimento ou medicamento? Como agir com alunos alérgicos e diabéticos? A partir de que idade pode ser consumido? Informações nutricionais: mel x açúcar refinado. Segurança das embalagens. Também realizamos feiras de produtos apícolas na cidade, e ações como a implementação do Projeto Dia do Apicultor e Dia do Mel nas Escolas, entre outras”, afirma.

A nutricionista informa, ainda, que fez uma pesquisa com alunos do município para verificar o alcance das ações. “A pesquisa incluiu alunos de várias faixas etárias e revelou que 71% consomem mel na escola, 35% passaram a consumir em casa ,74% gostam de mel, 65% consideram o mel um alimento saudável e 21% conhecem outros produtos apícolas”, explica.

Natália revela também que fez uma pesquisa com nutricionistas de 21 municípios do Vale do Paraíba, a qual mostrou que 86% não oferecem mel na alimentação escolar, mas que 90% das nutricionistas são a favor dessa inserção. “Esses números mostram a necessidade de uma maior mobilização dos atores da cadeia em nossa região”, ressalta.