quinta-feira, 28/06/2018
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Boas Práticas

Alunos se tornam mediadores e ensinam o respeito ao próximo

Projeto levou à escola benefícios como diminuição da evasão e combate ao bullying

Em Araçatuba, na EE Professora Altina Moraes Sampaio, uma turma formada por alunos protagonistas se tornou a grande responsável pelo bom relacionamento interno, pela diminuição da evasão escolar e pelo combate ao bullying. Os “Mediadores Mirins” são tão bem aceitos pela comunidade, que quando um pai é chamado pelo mal comportamento de seu filho a conversa é entre adulto e criança.

Em 2015, Glaucia Graneli assumiu a vice-diretoria da escola e percebeu que alguma coisa precisava ser feita para que o bom andamento da unidade não fugisse ao controle. Com isso, passou a adotar práticas de mediação a conflitos e apoiar o desenvolvimento de programas de justiça restaurativa. Glaucia tratou de colocar em prática suas habilidades como mediadora, e o mesmo aconteceu com os professores. Mas, não estava surtindo o efeito esperado.

“Eu cheguei determinando pelas normas de convivência, como uso de uniforme, horário regrado, essas coisas. Aí eles estranharam. Sinceramente era um caos”, explica Glaucia.

Foi então que a vice teve a ideia de fazer com que os próprios alunos mediassem os conflitos. Passou a treinar uma turminha de interessados, que foram selecionados previamente. “Nessa formação eu explico tudo sobre mediação. Como eu já fui mediadora em outra escola, fica mais fácil repassar a experiência”, conta.

O projeto “Mediadores Mirins” envolve valores, atitudes, comportamentos e práticas. Trata-se de um processo que articula sensibilização e leitura crítica da realidade. Além disso, busca desenvolver nos alunos relacionamentos positivos e atuar de forma corresponsável, tendo em vista o desenvolvimento da aprendizagem e do projeto de vida dos mesmos, com foco na solução e não no problema.

Os interessados compareceram na reunião para obter mais informações e efetivar sua participação ao projeto. Foi então que criaram um cronograma de formação para o grupo. No intervalo do almoço, na sala de informática, Glaucia desenvolveu as capacitações de todos os alunos mediadores mirins, através de vídeos, palestras e exemplos práticos de técnicas de mediação.

Os assuntos abordados incluíram a Prática do Diálogo, a Prática Restaurativa, Aconselhamento Individual e Coletivo, Círculo Restaurativo e Centramento. Com tudo isso, aqueles alunos, e todos que se prontificam a ser mediadores, desde então, ocuparam posição de protagonista na comunidade escolar.

“Nos encontros, a Glaucia promoveu reflexões e rodas de conversas para que a gente aprendesse mais sobre a prática restaurativa. Assim, começamos a entender o que realmente é o protagonismo e como podemos ajudar os alunos. E meus colegas e eu tivemos a conscientização do ato de ser multiplicadores desse projeto”, afirma a jovem mediadora Stefani Santos Oliveira.

Esse protagonismo é tão forte, a ponto de a própria gestão da escola prestar esclarecimentos sobre os alunos que acumulam faltas. Os mediadores que também são líderes de classe relatam à vice-diretora, no momento da chamada diária – feita pela própria Glaucia em todas as classes, caso algum aluno faltou uma ou mais vezes. Depois da terceira falta, eles solicitam à Glaucia que entre em contato com o responsável pela criança ou adolescente para que seja dada alguma justificativa. É nessa hora que a hierarquia da escola se vê totalmente invertida, pois os mediadores e líderes de classe a procuram para saber se o pai ou a mãe do aluno faltoso deu algum esclarecimento. Aos risos, Glaucia comenta que “é muito invertido. Mas, já estou tão acostumada com a cobrança…”

Teve até um caso em que duas mediadoras mirins conversaram diretamente com a mãe de um aluno. “A mãe aceitou de imediato falar com os alunos e não com a direção da escola. Como o projeto é conhecido, os pais já sabem a importância, entendem e aceitam muito bem”, enfatiza Glaucia. E assim, aos pouquinhos, a evasão escolar vai sendo combatida.

A aluna mediadora mirim, Natalli Fernandes, gosta muito de participar do projeto, “porque eu posso ajudar os meus colegas da sala e os alunos novatos a respeitarem, a ter boas maneiras e, ainda, a saber ouvir, pois isso é muito importante”, explica a adolescente.

O bullying é sempre uma questão muito séria e precisa de atenção especial em todas as escolas. Identificar e combater a prática de perseguição espontânea também é um dos focos dos mediadores mirins. Em parceria com um grupo de voluntários, alunos e direção participam de conversas com orientações sobre como ser mais forte que o bullying. Além disso, quando os professores percebem algo estranho dentro da sala logo tratam de informar os mediadores, que darão um jeito de ajustar as coisas. “O respeito cresce muito. Eles olham os mediadores como espelhos. E, de fato, são alunos que devem ser tidos como exemplos”, se admira a vice-diretora.

Além do respeito, da solução para os conflitos, do controle de evasão escolar e do combate ao bullying, a iniciativa colabora também para o processo de aprendizagem dos estudantes. Segundo o professor Rodolfo Ribeiro Chiccoli, os alunos têm mais “facilidade na concentração e foco nas atividades propostas e nos estudos. Bem como usufruem de maneira protagonista os quatro pilares da educação como: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver com os outros e aprender a ser”, comenta.

Um simples projeto e tantos benefícios. “Tudo isso é direcionado para o protagonismo e para o projeto de vida dos alunos. Aluno funciona! Nossa, funciona demais! E os meus mediadores amam o que fazem”, finaliza a vice-diretora Glaucia.