segunda-feira, 12/09/2011
Últimas Notícias

Escolas centenárias do estado de São Paulo narram a memória do ensino paulista

Rede estadual de São Paulo tem cerca de 80 escolas com mais de 100 anos, que em construções suntuosas, narram as mudanças no ensino desde o século XX Uma volta ao passado e a costumes que já não existem mais. É essa a sensação ao entrar pelo portão central da Escola Estadual Romão Puiggari, no bairro do Brás, em […]

Rede estadual de São Paulo tem cerca de 80 escolas com mais de 100 anos, que em construções suntuosas, narram as mudanças no ensino desde o século XX

Uma volta ao passado e a costumes que já não existem mais. É essa a sensação ao entrar pelo portão central da Escola Estadual Romão Puiggari, no bairro do Brás, em São Paulo. O piso de ladrilhos e as portas de madeira escura, apesar de não serem mais as mesmas de sua inauguração, em 1898, mantém as características originais do prédio construído por Ramos de Azevedo.

Assim como o colégio do Brás, que este ano completa 113 anos, mais de 80 escolas estaduais de São Paulo são centenárias. O valor histórico dessas e de outras construções do início do século XX fez com que mais de 120 unidades escolares da rede fossem tombadas pelo Conselho do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo (CONDEPHAAT). Grande parte delas reflete as inspirações neoclássicas e o padrão das edificações da Primeira República, características marcantes dessa fase da arquitetura paulista.

 Veja fotos de escolas centenárias:

[slideshow custom=true]

Em 2011, ?outras dez escolas entram para a lista das centenárias paulistas. São elas: E.E. Doutor Washington Luiz, em Batatais; E.E. Professora Dona Jacyra Landim Stori, em Capão Bonito; E.E. Rodolfo Moreira Fernandes, em Indaiatuba; E.E. José Inocêncio da Costa, em Matão; E.E. Sud Mennucci, em Piracicaba; E.E. Barão de Serra Negra, em Rio das Pedras; E.E. Doutor Carlos Guimarães, em Santa Cruz das Palmeiras; E.E. Doutor Álvaro Guião, em São Carlos; e E.E. Coronel Olímpio Gonçalves dos Reis, em Socorro e a Escola Estadual Pirassununga.

A E. E. Pirassununga, por exemplo, ganhou até um blog em comemoração aos cem anos. A página já contabiliza mais de 27 mil visitas, é uma amostra do carinho da cidade pela instituição. Na página, fotos e depoimentos de ex-alunos contam a história da escola criada em 1911, que completou seu centenário no dia 11 de junho deste ano.

O prédio que abriga a escola foi construído em 1914 e, ainda hoje, é considerado um dos mais belos do Estado. Em seu interior, as grandes janelas e um salão nobre com ares de teatro o torna ainda mais deslumbrante do que quando visto de fora. Em 1981, parte do edifício foi danificada por um incêndio e teve que ser restaurada. O incidente é um marco na história da escola e também está documentado no blog do centenário, por meio de fotos.

Observar os detalhes desses prédios é também uma forma de conhecer a história da educação no Estado. No pátio da E.E. Romão Puiggari, uma marca no chão aponta o local onde antes ficava o muro que separava meninos e meninas na hora do intervalo. Na época da construção da escola, até mesmo as salas de aula eram separadas por sexo.

Berço dos imigrantes

O Primeiro Grupo Escolar do Brás, hoje conhecido como E.E. Romão Puiggari, foi construído para atender os imigrantes espanhóis, italianos e portugueses que moravam no bairro. “Eles diziam que queriam aprender o brasileiro na escola”, conta Maria Luíza Pedreira, ex-aluna e hoje professora da escola. Símbolo da miscigenação no início do século, ainda hoje a escola recebe alunos de diferentes países como Bolívia e Coréia, filhos dos trabalhadores e donos das oficinas de costura que se instalaram na região.

Na história do prédio há relatos de poucas alterações na estrutura original, entre elas a substituição da escadaria original de madeira, destruída em um incêndio em 1926. O que realmente mudou foram os arredores da escola e os costumes da comunidade. Andrea Severino, diretora e também ex-aluna, conta que na época em que estudou por lá era costume as mães acompanharem seus filhos até o portão de entrada. “Havia também um túnel, que passava por debaixo da Avenida Rangel Pestana, para que os estudantes atravessassem em segurança”, comenta.

Monumento na Avenida Paulista

Fundado em 1907, o Grupo Escolar da Avenida Paulista nasceu para reunir seis pequenas escolas da região. Seu primeiro endereço foi a Rua Pamplona, onde permaneceu até 1919, quando se mudou para um suntuoso prédio na Avenida Paulista, também projetado pelo arquiteto Ramos de Azevedo.

Apesar do endereço nobre, a Escola Estadual Rodrigues Alves, como é chamada hoje, não foi criada para receber a elite do início do século passado. O propósito de atender a comunidade menos abastada não fez com que o prédio fosse menos luxuoso e, assim como as demais construções da época, o edifício ostenta vitrais trabalhados, pé direito de cinco metros de altura e grandes escadarias de madeira.

A preservação do edifício, tombado em 1985 pelo CONDEPHAAT, rende um trabalho dobrado para direção e professores. A obra mais recente aconteceu entre 2003 e 2006, quando uma parceria com o Banco Real promoveu a restauração completa do prédio. Durante os trabalhos, foram encontrados afrescos originais, que estavam escondidos sob as camadas de tinta. De acordo com a diretora da escola, Ivete Mitiko Sunamoto, comenta-se que outras relíquias históricas também estariam escondidas por debaixo das camadas de tinta das paredes da E.E. Rodrigues Alves. “Em 1932, a escola serviu de abrigo para os combatentes da Revolução Constitucionalista, que teriam deixado mensagens daquela época nas paredes do prédio”, conta.

Memória viva

O Grupo Escolar de Vila Mariana, criado em 1909, mudou para o edifício neoclássico na Rua Dona Júlia em 1919. Hoje, com o nome de Escola Estadual Marechal Floriano, o prédio mantém sua fachada nas mesmas formas e cores originais, porém cercada por muros mais altos do que antigamente. Quatro novas salas foram construídas nas laterais do prédio e algumas reformas foram realizadas nos telhados e pisos. “A Fundação para o Desenvolvimento da Educação realizou cinco ou seis obras e nos ajuda a manter essa relíquia, que é o único prédio tombado do bairro”, comenta Márcia Sunamoto, diretora da escola.

Outra relíquia mantida pela direção é o contato com ex-alunos e moradores do bairro, uma espécie de memória viva da escola. Dona Julieta Zughaib, hoje com 87 anos, frequentou a E.E. Marechal Floriano até os 11. “Voltar aqui me traz muitas lembranças boas da minha época. Venho sempre que posso”, afirma Julieta.

Dona Julieta vista a Escola Estadual Marechal Floriano acompanhada de sua filha, Emília Zughaib, que hoje leciona na unidade


Entre as mais antigas

O prédio que abriga a Escola Estadual Culto à Ciência foi construído pela Sociedade Maçônica de Campinas em 1874 e só passou para as mãos do Estado em 1892. A beleza do edifício, construído nos moldes da arquitetura clássica francesa, tornou a escola um ponto turístico da cidade e uma parada obrigatória no roteiro dos visitantes.

Além de ser um patrimônio histórico, tombado pelo CONDEPHAAT em 1983, a escola preserva um acervo com mais de 20 mil livros, incluindo obras que datam de 1600 e 1700. “Criamos um Centro de Memórias que hoje recebe pesquisadores de vários países”, afirma Débora Seneme Gobbi, diretora do colégio.

Com reputação de escola tradicional, a Culto à Ciência é referência em educação na cidade e no Estado. A fama faz jus à lista de ex-alunos, que conta com nomes que vão de Santos Dumont a Fausto Silva.

No vídeo abaixo, você conhece a história de mais uma escola centenária: a escola Caetano de Campos, atual sede da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo.