quarta-feira, 28/04/2004
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Premiação do Concurso Professor Escritor acontece na sexta

Para novos talentos da Literatura, que lugar seria mais adequado que uma Academia de Letras? Pois será no prédio da Academia Paulista de Letras, localizado no Largo do Arouche, 312, que os vencedores do I Prêmio Lygia Fagundes Telles – Concurso Professor Escritor, serão homenageados. A cerimônia acontece nesta sexta-feira, dia 30 de abril, a […]

Para novos talentos da Literatura, que lugar seria mais adequado que uma Academia de Letras? Pois será no prédio da Academia Paulista de Letras, localizado no Largo do Arouche, 312, que os vencedores do I Prêmio Lygia Fagundes Telles – Concurso Professor Escritor, serão homenageados. A cerimônia acontece nesta sexta-feira, dia 30 de abril, a partir das 14 horas.

Além dos 13 premiados nas categorias Poesia, Conto e Ensaio, que receberão um prêmio em dinheiro e certificado, também subirão ao palco do auditório da APL para receber certificados os 10 professores aos quais foi outorgada Menção Honrosa em Poesia e Conto. “Foi uma maneira encontrada pela comissão julgadora de reconhecer a grande quantidade de bons textos recebidos pelo concurso”, conta a coordenadora do CRE Mario Covas, Maria Aparecida Magnani, que também agradece o empenho de todos os educadores que participaram do Prêmio enviando textos.

O júri do Concurso Professor Escritor foi integrado pelo escritor Luiz Galdino e pelos professores doutores Marisa Lajolo, Marcia Razzini, Norma Goldstein, Vagner Camilo e Viviana Bosi.

Sobre os detalhes da programação da cerimônia, Maria Aparecida Magnani prefere fazer mistério. “Além da escolha de um local totalmente identificado com a literatura, estamos preparando uma festa cheia de arte e de emoção para os professores premiados e para todos os presentes”, diz.

O evento será presidido pelo secretário Gabriel Chalita. Estarão presentes à festa a escritora Lygia Fagundes Telles, convidada especial e homenageada pelo prêmio, o presidente da Academia Paulista de Letras, Erwin Theodor Rosenthal, dirigentes de ensino e outros convidados da Secretaria. Cada um dos premiados também poderá levar até quatro acompanhantes.

Após a entrega dos prêmios, os convidados participarão de um coquetel.

Cerimônia de entrega do Prêmio Lygia Fagundes Telles

Concurso Professor Escritor

Local: Auditório da Academia Paulista de Letras

Largo do Arouche, 312, Centro

Data: dia 30 de abril, sexta-feira, a partir das 14 horas.

A partir de sexta-feira o Site do CRE publicará, na íntegra, os textos premiados e os que receberam Menção Honrosa no Concurso Professor Escritor.

Nilva Bianco

 

Entrevista

“Quando lemos um livro nunca saímos dele

do mesmo jeito que entramos”

Donato, Maria de Fátima e Vanja lecionam Língua Portuguesa em escolas do interior paulista. O amor à Literatura os levou à profissão. Não contentes, passaram a escrever suas próprias poesias, contos, ensaios, meios de se expressarem e se relacionarem com o mundo, vasto mundo. Os três foram os primeiros classificados no Concurso Professor Escritor, nas categorias Poesia, Conto e Ensaio. Donato Silva Filho é professor da E.E. Prof. Genésia Isabel C. Mencacci, de Sorocaba, e foi classificado em primeiro lugar na categoria Poesia, com “Janelas Abertas III”; Maria de Fátima Lucena de Oliveira Totoli, da E. E. Profa. Clarice Costa Conti, de Americana, foi premiada na categoria Ensaio, com “Atmosferas densas numa narrativa solidária”; Vanja Thiers Cacciatori, da E. E. Prof. Geraldo Alves Correa, de Campinas, ficou em primeiro na categoria Conto, com “O brilho do silêncio”. Leia a seguir a entrevista que eles concederam ao site do CRE Mario Covas, na qual contam como começaram a escrever, o que os moveu a participar do Concurso, as expectativas que tinham, a importância da leitura em sala de aula…

 

Clique aqui para ver os nomes dos vencedores e dos

professores que receberam Menção Honrosa no concurso.

<http://www.crmariocovas.sp.gov.br/ntc_l.php?t=009>

Há quanto tempo você escreve? Como começou?

Donato – Escrevo poemas desde que era aluno da 5ª série da então E. E. P. G. “José Gomide de Castro”, em São Miguel Arcanjo, “cidadezinha qualquer” da região de Sorocaba. Reza a lenda que “quem bebe água do Iguapé sempre volta a São Migué”. Acredito. Em minha cidade, poesia é “querência, vida rio gente mata bicho lua dor pele boca sonho seixo sorriso estrela ciência oração”. E parto, e luto. E outros mundos insuspeitados em nós e a rede de perguntas não respondidas e responsos por respostas desencontradas e o risco do silêncio inevitável do indizível. E respira.

Maria de Fátima – Faço pesquisas e escrevo sobre autores da Literatura Brasileira desde 1984, quando fazia o antigo curso Magistério normal. Eram trabalhos de pesquisas com autores como Machado de Assis, José Lins do Rego, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Castro Alves, José de Alencar, Joaquim Manuel de Macedo, Aluísio de Azevedo, o Modernismo no Brasil, entre outros, e que na realidade, eu nem sabia que eram ensaios, por na época não ter conhecimento. Fazia estes trabalhos por prazer, pois sempre lia obras de autores brasileiros e ao término das leituras sentia uma imensa necessidade de escrever sobre o que lia. Então eu pesquisava sobre a vida e obra do autor e ia lendo as obras mais importantes de cada um deles e anotando as impressões que tinha sobre a leitura.

Vanja – Comecei a escrever contos em meados dos anos 80, quando senti necessidade de escolher a forma de expressão que melhor se adaptasse à minha natureza.

 Quais as ‘matérias-primas’ para o seu trabalho literário?

Donato – Minha matéria-prima? “O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,a vida presente.” (Carlos Drummond de Andrade) “Escrever por aqueles que não podem escrever. Falar por aqueles que muitas vezes esperam ouvir da nossa boca a palavra que gostariam de dizer.” (Lygia Fagundes Telles). “A linguagem é o meu esforço humano.” (Clarice Lispector) Quando o dia está muito ruim (“O tempo é ainda de fezes…”, Carlos), penso: vias melhores dirão… “Este é o meu testemunho.” (Ana Cristina César)

Maria de Fátima – A matéria-prima do meu trabalho literário é a leitura e a pesquisa. Leio e pesquiso por prazer. Sou uma leitora assídua. Quanto à ficção, a substância fundamental é o sonho. Sonho com histórias tanto dormindo quanto acordada, converso muito com minhas personagens, quando imagino minhas histórias.

Vanja – A realidade, o mundo e a forma.

 Já tem materiais publicados?

Donato – Meu poema “Capítulo” foi selecionado por Caio Fernando Abreu e Ignácio de Loyola Brandão em 1989, num concurso da W/GGK. O poema “Dezembro” foi publicado na antologia Folhas avulsas (SP, Educ, 1992), resultado do I Concurso Universitário Livre de Poesia Brasil-Portugal da PUC/SP. Nunca me esforcei por editar poemas. Não me pergunte por quê. Nos idos de 1989, numa sessão de autógrafos, na USP, Lygia Fagundes Telles (não sei por que mistério) perguntou-me, afirmando, se eu era poeta. Como nunca tive certeza de nada, respondi sem convicção que escrevia algumas coisas. Ela então assentiu e escreveu, no exemplar de ‘A disciplina do amor’ que lhe estendi, como se não precisara de resposta: “Para o poeta, com votos de sucesso.” Fiquei emocionado.

Maria de Fátima – Tenho apenas uma poesia que foi publicada numa coletânea de textos selecionados pela Secretaria de Educação de Pernambuco, depois de ter participado de um concurso em nível nacional e ter recebido um diploma de Menção Honrosa.

Vanja – Na época que cursava a graduação, um jornal publicou algumas poesias minhas.

 

Como ficou sabendo do Concurso Professor Escritor?

Donato – Soube do Concurso Professor Escritor por meio do professor coordenador da Escola Estadual onde leciono.

Maria de Fátima – Fiquei sabendo do concurso através de um texto retirado do site do Centro de Referência em Educação Mário Covas e que estava anexado no mural da sala dos Professores. Depois encontrei um prospecto também anexado no mesmo mural.

Vanja – Durante uma das reuniões pedagógicas realizadas na escola recebemos o folder sobre o evento.

 

Foi difícil tomar a decisão de participar? Achava que tinha chances?

Donato – Embora nutrisse esperanças de ter o texto apreciado (“Viver sem sonho, pra quê?”, Lygia Fagundes Telles), não imaginava que ele ficasse entre os cinco primeiros. A decisão de participar do Concurso foi fácil. Difícil, mesmo, achar tempo neste “tempo de divisas, tempo de gente cortada…” (Carlos Drummond de Andrade).

Maria de Fátima – Não foi difícil tomar a decisão de participar do concurso, pois quando vi a categoria Ensaio sobre a obra de Lygia Fagundes Telles, lembrei-me do trabalho redacional sobre vida e obra de Cecília Meirelles, imaginei que seria no mesmo estilo, comecei a matutar por onde começar, então busquei todo o material necessário para o trabalho na Biblioteca do Professor na escola. Tudo isso devo também ao trabalho de leitura que desenvolvi com meus alunos durante o ano. Pensei em homenagear a escritora com a leitura de uma obra, no caso ‘As Meninas’ em sala de aula, e a leitura de vários contos. Quanto às chances de ganhar para mim era uma impossibilidade, pois tem muita gente boa por aí que lê, estuda muito e escreve.

Vanja – No momento que tomei conhecimento da existência do concurso, acolhi com entusiasmo a iniciativa do CRE Mário Covas e vislumbrei a possibilidade da minha participação. As oportunidades de fazer notar uma obra literária são tão raras por aqui que a minha expectativa de ter chances não estava centrada no fato do meu conto ser selecionado ou não, e sim na oportunidade de mostrar o meu trabalho.

 

Qual a importância de ter vencido o concurso, com seu trabalho selecionado por um júri de especialistas renomados?

Donato – Ser apreciado por grandes pensadores de nossa cultura é muito bom. Mas importa de fato ser lido, visto que ninguém escreve para ninguém. Neste país de não letrados, penso que, infelizmente, ser publicado e lido é um luxo para poucos. Há tantos bons artistas inéditos e tanto lixo cultural circulando. Aliás, luxo e lixo caríssimos. Contradição que vem de longe… Salve Lima Barreto!

Maria de Fátima – Nossa! Isso foi fantástico para mim. Está sendo de uma significação tão imensa. Comento com as pessoas que o melhor de tudo foi saber do grande corpo de jurados que leu e selecionou o meu texto. Eu li obra de Norma Goldstein, Marisa Lajolo, Luiz Galdino, Viviane Bosi, então isso foi maravilhoso! Quando vi o nome dos componentes que integraram o corpo de jurados, fiquei lisonjeada, pois não é sempre na vida que temos uma oportunidade destas, com escritores, professores doutores, especialistas tão ilustres lendo um texto nosso. Isso me dá mais coragem para continuar escrevendo. E como já disse, não deixar meus textos engavetados.

Vanja – Aconteceu a presença total, integral, com ampla capacidade de aprender e experienciar. Aconteceu o encontro essencial, o ponto de encontro, o face a face, a gratuidade em instância superior. … “Um artista anônimo pode, muitas vezes, criar uma obra verdadeira, e passar despercebido.” (Ferreira Gullar). A realização de uma obra literária que propiciou o acontecimento de uma relação de reciprocidade, foi gratificante.

 

Como se sentiu ao receber a notícia do prêmio?

Donato – Porque sou tímido e (modéstia à parte) modesto, senti uma espécie de constrangimento feliz com a notícia da premiação. Ainda mais porque me havia esquecido completamente do concurso. Tocou-me, de fato, a mobilização dos alunos, que me deram de presente – com sua alegria -, a clareza do que deva ser algo próximo ao sentimento de uma pessoa vitoriosa. É a eles, portanto, que dedico este prêmio.

Maria de Fátima – O prêmio para mim é algo simbólico. O Prêmio é bom? É. É sempre bom receber um prêmio como reconhecimento do nosso trabalho, mas o mais importante é saber que o texto será publicado, que o meu trabalho está sendo reconhecido.

Vanja – Comemorei. Dei pulos de alegria e junto cantarolei – ganhei, ganhei, ganhei!

 

Acredita que esse prêmio pode servir como um estímulo também para os seus alunos? Como trabalha a leitura em sala de aula com eles?

Donato – É estimulante, sim, para os jovens ter o professor reconhecido por um seu trabalho. Leitura é um exercício que os alunos da Escola Estadual Profª Genézia Mencacci praticam, em diversos níveis, desde a alfabetização. No início do ano, o corpo docente pensa um projeto para a Escola, o qual é adequado a cada turma, pois elas são grandes e heterogêneas. Espaço e material são condições imprescindíveis. Motivação também. Além de utilizar audiovisuais e outros recursos, procuramos aproximar sensivelmente os alunos do texto escrito, seja ele literário ou informativo. Assim, contam-se e recontam-se histórias, organizam-se sessões de leitura em sala de aula e ao ar livre, jograis, grupos de dramatização… Familiares e amigos lêem livros emprestados pelos alunos, trocando idéias com eles. Sabemos que a participação consciente destas pessoas é essencial na educação formal dos jovens. Nas reuniões de pais, reservamos um tempo para conversar a esse respeito.

A poesia está presente sempre que possível e incrementa, nas aulas, epígrafes sugeridas pelo professor ou pelos alunos; antologias, canções, trovinhas juvenis flagradas nos cadernos de redação, que servem também de cadernos de poesia e diários ilustrados…

Como nossa escola não tem espaço útil para uma biblioteca que funcione na prática (é atualmente usada para sala de aula), os “professores-bibliotecários” trabalhamos com uma biblioteca itinerante. Após uma triagem para adequação de títulos à faixa etária, os livros são disponibilizados para que os alunos manuseiem, escolham e leiam à vontade o que lhes interessa ler. Nada é imposto; ninguém é obrigado a ler. Só assim conseguimos que aos poucos desenvolvam respeito pelo livro e pelo momento de leitura.

Muito livro bom tem chegado, coleções preciosas de literatura brasileira e universal às quais, não fosse pela escola, alunos carentes jamais teriam acesso. Às vezes, o aluno não quer ou não pode ler. Quem vai obrigar? Interessa-nos, sobretudo a formação do hábito de leitura. Que esta seja valorizada como fruição e meio de lidar com a curiosidade e o conhecimento. Nossos maiores obstáculos são ainda o grande número de alunos por turma, a carência de melhores condições materiais e uma jornada exaustiva de trabalho a que a baixa remuneração impele os professores.

Maria de Fátima – Acredito. Acredito e muito. Tanto é que li meus textos em algumas salas. Inclusive antes de mandar o conto que recebeu a Menção Honrosa, eu o li para alguns alunos. Quando uma de minhas alunas falou: “Nossa, professora, não consigo conter a vontade de chorar! É Lindo!”; foi quando me veio a idéia de enviá-lo para o concurso. Depois do resultado, comentei com eles sobre o reconhecimento do meu trabalho, quem foi o júri que selecionou o texto; e, sempre falo para eles que ler é o melhor caminho. Não existe amigo melhor na vida do que um bom livro te acompanhando sempre. Quando terminamos de ler um livro é como alguém tão próximo que está partindo, ficamos com saudades das personagens.

Acredito que a literatura é um meio que temos para transformar o ser humano. Quando lemos um livro, nunca saímos dele do mesmo jeito que entramos, alguma coisa sempre vai mudar, e nós vamos mudando, nos transformando e a literatura nos ensina a ter mais amor, a sermos mais solidários com as pessoas. Faz-nos acreditar que não fazemos parte deste planeta, que estamos só de passagem por essa grande Nave Mãe Terra, que fazemos parte de uma dimensão maior, uma dimensão que nos mostra onde encontrar Deus. O Universo é infinito, mas mais infinita ainda é a imaginação do homem que lê e cria.

É muito importante que o professor leia junto com seus alunos e fale o que está lendo. Do mesmo jeito que a TV engenhosamente aguça a curiosidade das pessoas para assistir as novelas, resumindo os fatos, mostrando o enredo, deixando-os curiosos para assistirem as cenas subseqüentes, procuro fazer com os livros em sala de aula: pego-os e vou contando o enredo, apresentando as personagens, situando-os dentro do contexto das épocas, deixando o clímax e o desfecho por conta da curiosidade deles. Muitos ficam nervosos porque eu começo a história e não falo o final. Vejo-os indo à biblioteca e buscando o livro para ler; num segundo momento, seleciono contos que dialoguem com textos de outros autores, faço as várias leituras em sala de aula, aluno/professor, professor/aluno, interagindo, dramatizando, contextualizando. Discutindo e debatendo, numa interação, apreendemos os significados, confrontamos as diversas opiniões e visões de mundos, contamos o que lemos. Depois trabalho a intertextualidade, pois há muitos textos que o autor dialoga com outros textos.

Levo os alunos ao teatro, sempre que tem peças cujos textos estão no contexto das leituras, pois a interpretação do palco é sempre uma nova leitura. Trabalho também as leituras audiovisuais. Vivemos numa aldeia global, o planeta Terra tornou-se um só país devido a influência dos meios de comunicação. Nossos alunos já vêm informados para sala de aula. É necessário percorrer o caminho da variedade de leitura, fazendo o aluno degustar sentindo o sabor da diversidade de textos, desde o jornal, as propagandas, aos textos literários, pois a leitura não é só um conhecimento, mas também uma habilidade que deve ser dominada através do uso.

Vanja – Com certeza. A conseqüência desse prêmio foi o crescimento do interesse dos alunos por uma renovação de valores – o insignificante tornou-se significado – já são visíveis mudanças comportamentais como: a proximidade comunicativa, a confiança, a amabilidade e a vontade de aprender. Em sala de aula, utilizo as mais variadas linguagens: a oral, a escrita, a cênica, a plástica, a música e recursos audiovisuais.

Nilva Bianco